NÃO DÁ MAIS, BASTA!

SERÁ QUE AINDA DÁ TEMPO?

Quando acho que as pessoas estão cansadas do que eu digo, identifico que ainda nem começaram a perceber a profundidade do problema da criminalidade urbana que vivemos no Brasil.

Talvez poucos saibam, mas na noite do último dia 25 de março, quarta-feira passada, houve um crime bárbaro em Porto Alegre, com envolvimento de amigos da mesma idade, tendo o praticante do crime esfaqueado seu adversário causando a morte de um jovem de 16 anos, com um possível futuro brilhante devido a sua realidade social e econômica.

Ontem à noite fui provocado por um grande amigo a escrever um artigo, para TENTAR explicar (sim, porque ninguém efetivamente sabe a razão) como adolescentes de classe média alta, frequentadores de escolas tradicionais e renomadas, se envolvem em casos de violência urbana. Infelizmente, para a maioria da população, essas atrocidades quando ocorrem em locais de população de baixa renda não chocam mais, pois temos a sensação que esse tipo de crime não nos atinge, apesar de serem fatos comuns e diários no Brasil.

Minha primeira resposta a esse amigo foi pedir pra ele ler meu livro, Caos Social a violenta realidade brasileira, publicado em 2014 (nada de novidade) onde realmente explico esse fenômeno. Percebo que ninguém quer entender esse problema a fundo, mas talvez de forma superficial, como tudo em nossas vidas nos últimos tempos. Nosso conhecimento está superficial, nossas relações estão superficiais, nosso interesse está superficial, pois não temos tempo de nos aprofundarmos.

Para apresentarmos ideias que podem mudar o mundo, não temos mais do que 5 minutos, devendo tal apresentação ser através do atual famoso “Pitch Deck” (apresentação muito rápida e objetiva), até porque o mundo está desconsiderando empresas renomadas e com história, e aparentemente vivemos apenas no mundo das inovações e das Start Ups. Sim, isso porque ninguém mais tem tempo a dedicar e muito menos a “perder”. Ler artigos é mais “in” que ler livros e se não tiver “emojis” e imagens em textos, perdemos totalmente o leitor. 

Então me senti realmente desafiado a talvez, dessa vez, escrever de uma forma que desde 2005 quando iniciei a apresentar meu diagnóstico, ainda não havia me estimulado.

Vou fazer isso através de perguntas, para quem sabe se juntos consigamos responder a razão de números estarrecedores de criminalidade urbana no Brasil, os quais deixo aqui um link (http://www.ipea.gov.br/atlasviolencia/), para quem realmente tiver interesse em ver com seus próprios olhos.

O Que levou nossos jovens de classe média alta e nossa sociedade a isso?

– Seria a banalização da vida humana em nosso país, onde mortes são simplesmente computadas em números e estatísticas? Onde damos mais valor para a vida animal do que para a humana? Sim, se matarmos ou prendermos um animal no Brasil, seremos presos por crime ambiental inafiançável, mas crimes contra humanos possuem penas menos rígidas e severas. Ou seria porque achamos que este tipo de problema não acontecerá com nossos filhos, pois nos consideramos acima de tudo e de todos? Ou seria pelo nosso individualismo, por pouco nos importarmos com a vida de nossa comunidade?

– Seria a impunidade que geramos no Brasil, primeiramente onde pais não punem mais seus filhos, permitindo-os serem inclusive agredidos e nada fazerem? Ou por uma legislação falha e branda, que permite que delinquentes que roubam carros a mão armada, sejam presos no mesmo ano, mais de 10 vezes pelo mesmo crime? Ou porque tiramos toda a autoridade de professores e escolas, onde hoje cobramos desses a razão de nossos filhos tirarem notas baixas, e quando nossos filhos espancam seus professores, ainda tentamos achar razão para tal? Ou por que quando nossos filhos atingem avaliações negativas, lhes oferecemos prêmios para recuperarem as notas, não sendo mais compreendido pela nossa sociedade, que notas boas e estudo não são mais do que a obrigação de cada estudante? Seria a impunidade a responsável por gerar criminosos em todas as classes sociais, tendo o Brasil hoje criminosos que nasceram em favelas e muitos que nasceram em bairros nobres e filhos de grandes empresários e autoridades?

– Seria pela perda dos princípios de moral e ética da nossa sociedade? Pelos índices de corrupção generalizada em nosso país, de políticos, empresários, funcionários de qualquer escalão, de grupos de policiais, de juízes, de todas as esferas, inclusive dos que simplesmente pegaram porque: “o que é achado não é roubado, quem perdeu foi relaxado”? Ou por que sempre procuramos levar mais vantagens que os outros, seja nas filas, no trânsito, nas estradas usando os acostamentos para ultrapassagens ou simplesmente estacionando nossos carros em duas ou até três vagas de estacionamentos públicos, para que o nosso veículo não seja arranhado? Ou porque fazemos de tudo para nossos filhos e permitimos que os mesmos façam coisas erradas, pois não queremos que esses sejam frustrados, mas não pensamos que logo ali a frente, algum amor irá lhes deixar, e que neste caso não estarão preparados para tal frustração, gerando riscos assim de suicídios ou então assassinatos passionais? 

– Seria pela inversão de nossos valores? Quando motoqueiros andam na contramão, em cima de calçadas, em alta velocidade e ainda quebram espelhos retrovisores de carros, por se considerarem na razão? Ou por considerarmos que quem deve educar nossos filhos a pedirem desculpas, agradecerem, darem bom dia, boa tarde e boa noite, seja a escola, os professores, as babás ou qualquer outra pessoa para quem terceirizamos a NOSSA obrigação? Ou porque o cidadão de bem está atrás das grades em suas residências, apartamento e casebres, e os delinquentes andam soltos pelas ruas com tranquilidade e segurança? Ou porque pagamos salários para famílias de presidiários e no Brasil se tornou interessante ser criminoso para ser bancado pelo estado? Ou seria porque nossos filhos não respeitam mais pais, avós, escola, professores, idosos, pois deixamos de criar crianças e passamos a criar fenômenos, reizinhos, superdotados, abastados, que independente da classe social, quando pequenos já possuem aparelhos celulares da última geração, o tênis que ainda será lançado, o boné que custa mais do que 10 quilos de carne? Ou por que no Brasil, quando um BANDIDO é preso, o mesmo não pode ser algemado por não ser necessário? 

– Seria porque permitimos que a instituição “família” fosse desestruturada e ridicularizada? Ou porque não temos mais tempo para nós e para os nossos, por termos excesso de tecnologia e de trabalho devido a isso? Ou por não sabermos os limites das necessidades para termos felicidade? Ou por estarmos vivendo numa sociedade que desacredita e ridiculariza a espiritualidade e as religiões?

– Seria porque vivemos o caos do sistema penitenciário no Brasil? pois nesse país temos 700 mil presos, e mais 500 mil mandados de prisão expedidos, para ocuparem menos de 440 mil vagas prisionais? Ou porque os bandidos dentro das cadeias estão mais seguros que os que estão na rua? Ou porque quando temos pandemia como a atual situação do Coronavírus, liberamos presos para que esses não sejam contaminados, quando a população de bem está sufocada e rendida por essa realidade, e assim mais uma vez condenamos nossa sociedade a sofrer com os mesmos criminosos soltos pelas ruas?

– Seria porque vivemos num país da falência dos órgãos de segurança pública? Onde policiais não possuem recursos adequados para trabalhar? Onde seus salários não condizem com suas necessidades básicas? Onde o policial mora do outro lado da rua do bandido? Onde o efetivo policial reduz a cada ano, e assim esses poucos tem que fazer cada vez mais? Ou porque as viaturas estão sucateadas e colocam a vida dos policiais em risco? Ou porque temos audiências de custódia, para após um criminoso assassinar um cidadão, e em até 24 horas após sua prisão, saber se o mesmo foi conduzido pelos policiais com amor e carinho, ou se esse possa ter sofrido algum trauma causado por possível linguajar inapropriado utilizado por algum policial contra tal “criminoso de bem” (existe isso ??)?

– Seria porque vivemos no país das leis falhas e brandas? Onde juízes liberam estupradores presos em flagrante, praticantes de crime hediondo, e os liberam por considerar que tal criminoso não oferece risco a comunidade? Ou por termos casos de delinquentes que num mesmo ano foram presos e soltos mais de 40 vezes, por “só” praticar crime de furto, não sendo considerado que o furto não é permitido por lei? 

– Seria porque alimentamos um mercado ilegal em nosso país? Onde não se considera problema a compra de produtos falsificados? Onde se compra produto roubado, se contrata gato de TV a cabo, e se fomenta que quanto mais os bandidos atuam, mais o cidadão “de bem” consome?

– Seria porque com a soma de todos os fatores sugeridos acima, criamos a percepção em 2020 que cometer crimes no Brasil compensa?

Quando tratamos de um problema grave que está atingindo nossa sociedade de forma abrupta, em grandes proporções e sem vermos perspectivas de melhora, não vai ser através de um artigo ou um livro que vamos conseguir diagnosticar, sugerir e dar soluções para essa grave crise. Vamos ter que nos debruçar sobre esse tema e efetivamente começar o quanto antes a resgatar nossos valores como sociedade, para quem sabe, pra quem ainda tem menos de 50 anos de idade, um dia possa ver uma certa melhora. Mas o trajeto é longo e necessita de um país capitaneando essas mudanças estruturais, caso contrário, estarei repetindo esses mesmos temas daqui a 20 ou 30 anos, mas estarei sem sombra de dúvidas, cansado.

O problema da criminalidade no Brasil é sistêmico, e para ser tratado precisa ser reestruturado na sua essência. 

A grande verdade não é que não conseguimos ver, é que não queremos aceitar!!!!!

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Gustavo Caleffi,

Especialista em gestão de riscos e segurança estratégica

Autor do livro Caos Social a violenta realidade brasileira.

Live no Canal do YouTube Be On APP apresentando esse diagnóstico: https://www.youtube.com/watch?v=GfOgbLYEH7k