O Glamour versus a realidade

Sempre me chamou muito atenção a expectativa que muitas pessoas tem de entrar no segmento de segurança para proteger e atuar com celebridades e autoridades, atividade que é reconhecida no mercado como Segurança VIP (VIP Protection) ou Proteção Executiva. Muitas pessoas nem o curso de vigilantes tem, mas já querem entrar como VSPP (Vigilante de Segurança Pessoal Privada), atividade que necessita por lei, iniciar do básico, ou seja, tendo uma primeira formação em vigilância.

Tirando as questões legais, quero aqui fazer uma análise a respeito da intenção do ser humano. Será que quem busca proteger celebridades tem essa intenção por uma questão pessoal de proteger quem realmente precisa de seu serviço e sua entrega pessoal, ou será que quem quer ser segurança pessoal está mais pensando em si do que nos seus protegidos?

A resposta para essa dúvida é muito simples, basta você ver nas redes sociais se o agente de segurança possui em seu perfil fotos com pose com seus protegidos. Caso seja positivo, certamente esse agente tem como propósito atender a sua própria expectativa de estar próximo de celebridades e atender ao seu próprio ego, do que efetivamente proteger essas pessoas. Protege-las, nesse caso, é uma necessidade para atender a sua vontade de se promover pela fama dos outros.

Digo isso com muita experiência, pois sempre que opero esse tipo de projetos, a maior dificuldade que temos é de mostrar aos agentes que para a celebridade brilhar, ela tem que estar segura, e para isso, o papel do agente de segurança é fundamental. Logo, o agente necessita estar atento 110% (mesmo que não exista essa possibilidade) do tempo, e por isso, não lhe é permitido relaxar mesmo que dentro de ambientes muitas vezes tidos como seguros. Por isso utilizamos o termo 24/7, ou seja, 24 horas por dia, 7 dias por semana.

Um agente de proteção pessoal tem que saber que todo o glamour dessa atividade só existe em filmes, como o famoso The Bodyguard (O Guarda-Costas), onde o ator Kevin Costner é o agente de segurança pessoal de uma famosa cantora interpretada por Whitney Houston. No meu entendimento esse filme é responsável por denegrir a imagem dessa profissão, uma vez que o agente se envolve emocionalmente com a protegida, algo inadmissível na visão técnica de segurança.

A verdade é que um agente de segurança VIP normalmente sai mais cedo de casa do que previa, e retorna mais tarde do que informou a sua família, isso se retornar e não sair em viagem inesperada e não planejada com seu protegido. 

O que realmente me intriga é como que pessoas tem o desejo de trabalhar para um perfil de clientes que normalmente decide tudo de última hora, depois que decidiu muda seus planos no meio da caminho, não gosta de seguir regras e combinados, não tem preocupação com sua segurança pessoal, até porque contrata agentes de segurança para terceirizar essa sua necessidade e muitas vezes desconsidera que sua equipe de segurança e demais serviçais são seres humanos que também precisam atender as suas necessidades básicas como alimentação, sanitário e descanso.

Quem já atua na área sabe muito bem do que estou falando, mas para quem tem curiosidade, seria importante conhecer a dura realidade de quem acompanha seus protegidos, estando próximo dos melhores veículos do planeta, mas não os possuindo, participando das melhores festas das cidades, mas não podendo se divertir (nem mesmo sacodir o pé quando toca aquela música que você gosta), participando dos principais banquetes mas se alimentando com a barra de cereais que levou no bolso, muitas vezes viajando para praias paradisíacas, mas nem se quer podendo vestir um traje de banho.

Intitulei esse artigo como “o glamour versus a realidade” justamente para mostrar as pessoas que as aparências enganam. Se você pretende algum dia trabalhar na proteção pessoal, saiba que suas prioridades serão as de seus protegidos, sua função é “simplesmente” proteger e sua atenção e dedicação é essencial para você voltar são e salvo para casa. E, por favor, não diga que eu não avise!

Gustavo Caleffi, DSE